MicroMundo


Sou um mosaico. Uma colcha de retalhos em que cada pedacinho é um teco que roubei de alguém. Mas não me leve a mal. Quando digo "roubei" é no bom sentido. Não significa que deixei alguém sem. É que me tornei um pouquinho como o outro, fiquei parecido.
É bom e é ruim ser vários sem ser ninguém. É esquisito. E é único. Quando o outro vira parte da gente, é como se fôssemos um pouco dele, sem deixar de ser nós mesmos. É inevitável não se contagiar pelo outro, a troca. Vai ver isso explica a confusão aqui dentro.
E quando roubo, roubo só o que se tem de melhor. Porque o "ruim" é tudo igual. Legal mesmo é roubar as esquisitices, as caricaturas, os tiques propositais. E depois adaptá-los como se fossem meus. Ajustar como parte do personagem que sou eu mesmo. Compor um ser cada dia novo e maravilhoso. Formado de fragmentos, gracejos, punhados alheios.
Isso tem nome: amor. Tanto que mesmo que o outro vá para longe, ele fica. Não deixo ir por completo. Fico com parte dele, sem que perceba. É só um pouquinho, coisa de meio, um por cento. Não faz diferença. Pra ele. Pra mim sim. Viro um pouco mais de poesia, um pouco mais de encontro, encanto.
Ser um só não me satisfaz, não tem graça. Bom mesmo é não ter fim. Nem começo.



Escrito por Mariana Santos às 23h32
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Momento flash back

O que te lembram essas duas músicas? A mim a infância, já que elas estiveram nas paradas de sucesso da década de 80. Lembro do meu pai cantando o refrão da Build do jeito como todo mundo cantava, errado: "Acabou o papeeeel" e eu adorava. A música tem o poder "sobrenatural" de nos transportar para outro lugar, outro tempo, nos permite reviver sensações. E eu tô lá agora, na década de 80. Pode dizer que as músicas são bregas, mas elas nunca vão sair da minha memória. E aposto que da sua também.

Curiosidade: Você sabia que o baixista da banda The Housemartins era o Fatboy Slim?

 

 

 



Escrito por Mariana Santos às 15h33
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Lembranças da Família Engraxate

 

Como prometi, separei um trechinho do livro-reportagem que fiz em parceria com a minha amiga Meire Barbosa como Trabalho de Conclusão de Curso, o tal TCC. O mais temido trabalho da faculdade, o último e mais profundo estudo do curso. Aquele que costuma destruir amizades, provocar desafetos. Mas não foi o nosso caso. Tivemos a felicidade de trabalhar juntas e, modéstia a parte, fizemos um excelente trabalho, o que nos garantiu nota máxima. Não posso deixar de registrar a contribuição fundamental do professor Valmir Santos, o Vals, amigo e grande orientador. Foi há dois anos, mas parece que foi anteontem. Abaixo um capítulo completo, que escolhi por ser meio independente dos outros. E também porque passa por quase todos os personagens da Praça, nosso laboratório.

Informações complementares: Tiquinho é o apelido do menino Valter, o filho mais novo da família engraxate. Aloísio é o pai de Valter e "as estudantes" somos nós, Meire e Mari.

 

 

Grande Tiquinho

 

            Ele é o mais sociável dos meninos. Gosta de jogar bola com seu irmão e as crianças do bairro onde mora. Na Praça, interage com quase todos os personagens, que o conhecem de suas andanças. Muitos lhe pagam lanches, tantos outros lhe oferecem a amizade da rua, o afago marginal do tapinha nas costas, da brincadeira de fingir pegar e correr. Valter tem a malandragem que aprendeu correndo para atravessar a avenida, conversando com seus clientes, negociando o valor da engraxada. Seus olhos de criança vêem tudo acontecer e digerem sem traumas, porque acostumaram-se ao cenário. Há ainda nele a inocência da idade, a vergonha às vezes, quando se enrosca no colo do pai e sorri timidamente tentando esconder que pediu ajuda para fazer a lição dada. Mas já existe em seus modos a esperteza do homem, certo oportunismo que a rua infere, quando vê uma cliente e lhe pede “caixinha”.

            Está acostumado a ganhar coisas de desconhecidos e de conhecidos também. Será que sabe quanto vale o dinheiro que ganha? Que conhece o valor do trabalho que realiza? Tem consciência do que representa?

            Na tentativa de traçar um perfil do menino, alguns desses personagens são entrevistados e falam suas impressões. Através de diferentes olhares e sentimentos, é desenhado um Tiquinho de emoções, em cores vivas que confirmam o que está estampado em seu rosto.

 

– O Valter é farinha! Toda hora ele vem, passa pela gente e corre –, afirma Alexandra Neres de Souza, vinte e seis anos, divulgadora de prata e ouro. Ela trabalha há quatro anos na rua atraindo clientes para a loja de onde os patrões a vigiam. Responde rapidamente, com medo de ser repreendida. Propõe outra rápida definição para o Valter:

– Ele é uma criança feliz. Tem crianças que você vê que não, mas ele é.

            Ricardo Silva, trinta e oito anos, colega de profissão de Alexandra, conhece Valter de passagem, vez por outra lhe dá balas, paga refrigerantes. Trabalha no prédio cinqüenta e quatro, em frente à cadeira de Aloísio, do outro lado da rua. Ele diz dar conselhos a Tiquinho, acha que ele deveria estar na escola ou numa creche, pois na Praça “vê muita coisa que não deve”.

            – Ele é muito descuidoso –, comenta.

            Apesar disso, considera Valter bem tratado. Todas as vezes que pergunta se ele se alimentou, o menino responde que sim. Ricardo trabalha ali há pouco mais de um ano, é casado e tem cinco filhos. Um deles é menino, como Valter.

            Buscando diferentes pontos de vista sobre Tiquinho, as estudantes vão até o posto da Guarda Civil Metropolitana, onde o menino entra quase diariamente oferecendo brilho às botas dos policiais. O inspetor – que não diz seu nome – permite que conversem com alguns policiais, mas sem citar seus nomes. Apesar disso, Luciana e Cláudio não se importam em identificar-se e tranqüilamente revelam suas opiniões sobre a Praça e o menino.

            Luciana, que aparenta cerca de trinta e seis anos é casada com um policial militar e mãe de um casal de crianças. Sobre o Valter, ela diz:

            – Ele é esperto, mas às vezes é bravo. É um menino caladinho e bem sossegadinho.

            Sabe pouco sobre a família do garoto. Conta apenas que moram em Ferraz de Vasconcelos. Sabe que ele estuda à tarde, pois o vê saindo sempre por volta de 11h. Diz que o serviço dele não é muito caprichado, mas permite que engraxe por vontade de ajudá-lo.

            – Ele costuma bater na caixa duas vezes (para o cliente trocar de pé, o próximo a ser engraxado). Não pede para trocar, apenas dá toques na caixa com a escova até que a pessoa perceba e mude. E faz cara feia se ela não entender.

            Cláudio, quarenta e quatro anos, casado e pai de dois filhos, entrou em mil novecentos e oitenta e seis na polícia. Está há oito meses na base da Praça da Sé. Seu perfil sobre Valter é de um menino esforçado, atencioso, educado. Fica o dia inteiro trabalhando, segundo ele. Acha que Valter não estuda justamente por ficar lá o dia todo. Cobra um, dois reais pela engraxada, que na sua opinião não é muito bem feita.

            Não poderia faltar a opinião de Maloqueiro, o plaqueiro, para completar a rima:

            – É um menino trabalhador, engraxa os sapatos dos policiais, ganha dez reais, entrega tudo para o pai –, testemunha.

            O adjetivo trabalhador, embora defina uma qualidade, tem um peso grande quando se trata de uma criança de nove anos, que normalmente não tem responsabilidades maiores do que o dever de casa e a escolha da próxima brincadeira.

            – O Valter é legal, mas tem de estudar. É um bom menino, mas aprende coisa errada –, emenda Maloqueiro.

            – Ele respeita o pai?

            – Sim. O pai bota lei nele.

            – E você, ele respeita?

            – Eu não, nóis é maloqueiro! –, ele ri.

            A gari Maria José de Araújo trabalha há cinco anos na Praça. Tem sessenta anos, mas aparenta quarenta e cinco e olhe lá. Está sempre maquiada e sorridente.

            Foi uma das primeiras pessoas a fazer amizade quando a Família Engraxate iniciou suas atividades na Praça e considera o Valter um menino legal, inteligente e trabalhador.

            – É bom filho. E tem um paizão –, diz.

            Já engraxou sapatos com Valter e recorda do dia em que pagou pelo serviço com uma banana. Ele recusou o dinheiro, depois de receber a fruta.

            Dia desses, depois de presenteá-lo com um caderno de desenho e uma caixa de giz de cera, as estudantes pedem para que faça desenhos. Antes de fazer o desenho que representa a Praça, ele avisa:

            – Vou desenhar esses quadradinhos aqui –, diz referindo-se ao chão.

 

 

           
Ele enxerga mais de perto o solo, que sente com os pés. Descalços. Anda pela Praça e pela vida, sentindo mais do que os sapatos são capazes. Valter quer ser doutor quando crescer, não importa do quê. Advogado, médico, doutor executivo? Sabe-se lá. Para ele, basta que lhe chamem de doutor!



Escrito por Mariana Santos às 15h46
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Cycling Trivialities

Procurei um motivo para postar aqui essa música, mas me dei conta de que não precisa. É linda e senti vontade de compartilhar. Aí encontrei o clipe, que desconstruiu tudo o que eu sentia quando a ouvia. A música é de José González, sueco, filho de argentinos, que canta em inglês. Voz, violão e não precisa mais.
E não escrevo mais nada, para que tirem suas próprias conclusões.

Too blind to know your best.
Hurrying through the forks without regrets.
Different now, every step feels like a mile.
All the lights seem to flash and pass you by.

So how's it gonna be?
When it all comes down you're cycling trivialities.

Don't know which way to turn.
Every trifle becoming big concerns.
All this time you were chasing dreams,
without knowing what you wanted them to mean.

So how's it gonna be?
When it all comes down you're cycling trivialities.
So how's it gonna be?
When it all comes down you're cycling trivialities.

Who cares in a hundred years from now?
All the small steps, all your shitty clouds.
Who cares in a hundred years from now?
Who'll remember all the players?
Who'll remember all the clowns?

So how's it gonna be?
When it all comes down you're cycling trivialities.

So what does this really mean?
When it all comes down you're cycling trivialities.
Cycling trivialities
Cycling trivialities.

José González



Escrito por Mariana Santos às 00h15
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Finalmente!


E rolou na quinta-feira (05/06) à noite, na Estação Pinacoteca o lançamento do livro “Brasil Direitos Humanos – 2008: A realidade do país aos 60 anos da Declaração Universal”. Sim, aquele pré-lançado na Suíça. Houve ainda outras duas cerimônias de lançamento, em Brasília (dia 26/05) e no Rio de Janeiro (28/05). Aqui, contou com a presença do Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos Paulo Vannuchi e até o senador Suplicy deu uma passadinha por lá. Chegou no final, mas foi muito simpático, como sempre, e cantou Blowin' in the Wind, com acompanhamento da banda do evento. Além, é claro, dos jornalistas que contribuíram com seu trabalho para o término do livro, alguns grandes amigos, outros que tive o prazer de conhecer lá mesmo. São vários artigos, entrevistas e reportagens, focando os avanços e entraves dos direitos humanos no Brasil nesses 60 anos da Declaração Universal. Segundo o ministro Vannuchi,  "os avanços na área dos direitos humanos ainda estão abaixo do mínimo necessário, porém, eles existem". O livro está disponível para download no site da Secretaria (SEDH) www.sedh.gov.br.

Não deixe de ler a reportagem Caçandoca Resiste.



Escrito por Mariana Santos às 13h48
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Entrevista com Eliane Brum (saiu no Comunique-se)

Ausência grande a minha, não? Ultimamente tem dado um remorso ficar muito tempo sem escrever aqui. Bom sinal. Vai ver já virou hábito e o hábito tem um poder incrível de disciplinar. Mas vamos ao que interessa. É que acabei de ler uma entrevista interessante com a jornalista Eliane Brum. Ela é repórter especial da Época e suas reportagens geralmente têm como personagem central o sujeito comum, as histórias do cotidiano, a "vida que ninguém vê". Aliás, esse é o título do livro que me fez admirar o trabalho dela. A Vida que Ninguém Vê. Recomendo. Compreendi com ele que as vidas comuns invisíveis são as mais extraordinárias. O livro me inspirou e ajudou muito no TCC há quase dois anos e ainda hoje. Aliás, NOS ajudou, também a minha grande amiga e super companheira de livro-reportagem, Meire Barbosa. Qualquer dia posto aqui algum trecho dele. E quando eu mesma entrevistar Eliane Brum posto aqui também, prometo. E para terminar esse post grande e sem nenhuma coesão nem coerência (sem pé e sem cabeça), aí vai, na íntegra, a entrevista.

Entrevista com Eliane Brum: "ser repórter é ser um escutador da realidade"

Projeto Na Mira

Eliane Brum, jornalista renomada e autora de três livros, entrou na profissão quase por acaso. Quando estudante, ela tinha certeza de que seria historiadora. Seu destino mudou ao conhecer Marques Leonam, professor de estágio, que a inspirou pela paixão com que falava da profissão.

Gaúcha de Ijuí, iniciou sua trajetória no jornalismo como repórter no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 1988. Desde 2000, é repórter especial da revista Época, em São Paulo. Os livros de sua autoria são Coluna prestes – o avesso da lenda (1994, Artes e Ofícios), A vida que ninguém vê (2006, Arquipélago Editorial) e O olho da rua (2008, Editora Globo).

Conquistou o Prêmio Comunique-se em 2006 e 2008. Ganhou dezenas de outros prêmios de reportagem, como Esso, Vladimir Herzog, Ayrton Senna e Sociedade Interamericana de Imprensa. Seu documentário, Uma história Severina (2005), do qual é co-diretora e co-roteirista, foi contemplado com mais de 20 prêmios nacionais e internacionais.

 

 

Como começou seu envolvimento com o jornalismo?

Acho que foi muito antes de eu gostar de ler jornais. Eu sempre gostei muito mais de olhar e de escutar do que de falar. Então, desde muito pequena lembro de mim observando as pessoas, quieta num canto. Passava pelas casas iluminadas por dentro e queria muito saber o que acontecia lá dentro. Queria saber como aquelas pessoas viviam, com o que sonhavam, o que as fazia rir ou chorar. Como não podia entrar, ficava imaginando enredos. O jornalismo me deu uma desculpa para bater na porta e entrar. Acho que cada matéria que eu faço me leva para dentro de uma daquelas casas iluminadas por dentro da minha infância.

 

Qual foi a sua maior dificuldade no início da carreira?

Nos primeiros anos foi difícil, porque eu ainda peguei o tempo em que as matérias dos repórteres passavam obrigatoriamente por uma equipe de redatores, que tratava de formatá-las. Eu sentia essa formatação como uma violência e, apesar de foca, brigava muito. Acho que os redatores também achavam que o que eu fazia não era jornalismo, porque era um texto mais solto. Mas, aos poucos, fui conseguindo conquistar meu espaço, especialmente depois que o Augusto Nunes assumiu a direção da Zero Hora, no início dos anos 90. Foi então que descobri que ser repórter é a melhor profissão do mundo.

 

Você teve problema com a timidez quando entrou no jornalismo?

Nunca fui tímida no exercício da reportagem. Acho até que os tímidos levam vantagem no jornalismo, porque naturalmente conseguem escutar mais os entrevistados. Creio que ser repórter é ser um escutador da realidade, num entendimento amplo do que é escutar. Sinto-me muito à vontade com os meus entrevistados e, quando estou na rua, são nestas situações que me sinto mais eu mesma. Sou tímida com público e com gente me olhando. Mas, agora, de tanto fazer palestra, já estou mais soltinha. Em vez de um iceberg na barriga, como sempre, agora só tenho um bloco de gelo de porte médio.

 

Já aos 11 anos você teve seu primeiro livro publicado. A que você atribui o seu gosto pela leitura e pela escrita desde tão nova?

Os livros foram a segunda grande descoberta da minha vida. (A primeira foi feijão.) Os livros me ensinaram que eu poderia viajar por outras vidas e outros mundos sem sair do meu quarto. Até hoje não concebo nada tão perfeito quanto essa idéia. Gosto de viajar pelos livros tanto quanto de viajar de trem ou de carro. Isso foi uma enorme descoberta, uma grande transformação na minha vida. Cada um tem um cheiro e uma personalidade, mesmo antes de eu começar a lê-los.

 

Com relação aos Direitos Humanos, muitas das suas matérias se baseiam nesse assunto. Como surgiu o interesse por esse tema?

Acho que minhas matérias, de certo modo, falam de um direito humano fundamental: o de não ser reduzido pelo olhar do outro. O que inclui o olhar do repórter, da imprensa. Busco olhar para as pessoas sem reduzi-las a um clichê ou a um personagem folclórico, a uma parte apenas de si mesmas.  Minha principal tarefa, como repórter, era dar voz a quem não tinha. Hoje, estou muito feliz que muita gente que antes dependia do olhar do repórter para se expressar no mundo, para ser escutado, passou a contar sua própria história, especialmente a partir da Internet, que criou espaços novos e acessíveis de expressão. Adoro quando o mundo da gente é revirado e precisamos dar conta de outras realidades.

 

Na sua opinião, o que é importante para fazer uma grande reportagem?

Além de olhar para ver, o mais importante é escutar. Muitas vezes, o mundo que levamos ao leitor se limita ao "fulano disse, sicrano retrucou". Felizmente, há muitos focos de resistência no país inteiro, mas, de qualquer modo, é triste. Acredito que escutar é mais do que ouvir. Escutar é não interromper o entrevistado quando ele suspira, é não interromper o entrevistado porque achamos que já sabemos o que ele quer dizer, é não interromper o entrevistado porque ele não está dizendo o que queríamos que dissesse.

 

Qual a matéria ou situação mais engraçada que você passou?

A situação mais inusitada vivida por mim foi fazer a matéria da prisão de uma ave. Ao ligar para o policial de plantão numa delegacia da região metropolitana de Porto Alegre, fiquei sabendo que o movimento estava tão calmo que a única presa era uma galinha. Na hora, a sirene tocou na minha cabeça. Como assim? Uma galinha presa? Chegando à delegacia, vi a galinha que tinha sido encontrada na companhia de um bêbado e de um galo morto. A polícia, naturalmente, liberou o homem e prendeu a galinha. Depois, fiquei sabendo que o bêbado era procurado por homicídio. O caso foi capa do jornal Zero Hora com o seguinte título: "Detida por atitude suspeita".

 

 

O projeto Na Mira é uma iniciativa dos estudantes de Comunicação Social que trabalham da Unidade de Pesquisa e Atualização (UPA), responsável pela atualização da base de dados do Comunique-se. Mensalmente, a equipe do Na Mira entrevista um jornalista. Participaram desta edição os estudantes Rafael Menezes, Carolina Monte, Robério Moura, Juliane Souza, Laercio Vieira e Priscila Reis. A coordenação do projeto é da gestora da UPA, Priscila Daud.


PS: Esqueram de citar o prêmio Jabuti (o mais anigo do Brasil), que ela ganhou em 2007, pelo livro A Vida que Ninguém vê.



Escrito por Mariana Santos às 00h04
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O vão entre o trem e a plataforma

Texto velho, mas lembrança inesquecível. Aconteceu comigo há uns 6 anos e foi quando escrevi. Não quis mexer na estrutura original para preservar a autenticidade. Fosse hoje, escreveria diferente. Mas aí vai, com o meu olhar de adolescente.

   Horário de pico. Ia chegar em cima da hora ao consultório do dentista para a manutenção mensal do aparelho ortodôntico. Mas o trem em que estava quebrou bem no meio do caminho. Marcava sempre para o último horário, porque trabalhava do outro lado da cidade e não conseguia chegar antes. Porcaria de trem! Sempre a deixava na mão quando ela mais precisava. O que mais poderia fazer senão esperar pelo próximo e ser “gentilmente” empurrada para dentro dele? O pior é que já tinha se atrasado no mês anterior e "aconselhada" a avisar sobre futuros atrasos. Como nunca tinha crédito no celular, resolveu ligar em casa a cobrar e pedir para a irmã contar sua história triste ao dentista.

    Quando terminava a ligação, percebeu que o novo trem chegava. Prevendo o alvoroço que se seguiria, foi logo se despedindo e desligou o telefone. Já podia sentir os hálitos em sua nuca e os cotovelos cutucando suas costelas. Aquele momento sempre exigia um grande preparo psicológico e espiritual. Se aproximou da beirada da plataforma, onde a multidão já se acotovelava para entrar no trem que ainda nem abrira as portas. Quando criança, aquele espaço entre o trem e a plataforma lhe causava arrepios, mas seu pai sempre a erguia pelos braços ou segurava no colo quando tinham de passar pelo vão. Agora, adulta, apenas tinha que esticar um pouco mais a perna para entrar, o que não era nenhum problema. O problema seria a maratona até o dentista para não fazê-lo esperar demais. Imaginou a cara feia da secretária, que não pretendia ficar um minuto a mais, já que no seu salário um cliente não faria a menor diferença.

    E então, aconteceu. As portas se abriram. Ela não sabia se devia ficar feliz ou desesperada. O trem, já cheio, ia ter que comportar o conteúdo de mais um trem. Sabia que não ia ser fácil. Ainda bem que eram só mais três estações! Como uma manada de rinocerontes, as pessoas começaram a empurrar-se para dentro do vagão, talvez com medo de nunca mais conseguir outro trem para ir para casa. Talvez todas elas estivessem atrasadas para o dentista e imaginando secretárias furiosas, obrigando-as a remarcar a consulta para o próximo mês. Chegava o momento em que teria que esticar um pouco mais a perna, ela sabia, mas droga! Com todas aquelas pessoas empurrando ficava difícil se concentrar no vão e aquele era particularmente diferente. A plataforma era mais baixa, o espaço maior.

    Em sua cabeça, pareceu demorar minutos inteiros, mas foi muito rápido, tanto que não conseguiu registrar os detalhes. E então... Eis que ela cai no buraco. Meu Deus, a moça caiu no buraco! Ouviu. Mas o mundo não parou, os rinocerontes continuaram sua corrida e, no segundo seguinte, lá estava novamente no meio da multidão, sendo empurrada. Olhou para trás na esperança de ver quem a salvara, para ao menos lhe agradecer, mas não viu. Tentou entender como aconteceu. Não tocou o chão, não ficou presa pelo corpo, nada doía, não sentia nada. Se a puxaram pelos braços ou pelos cabelos, não sabia dizer. Não teve medo, não deu tempo. Só sabia que estava ali, sã e salva, indo ao dentista. Arrepiou-se. Jamais conseguirá explicar aquela fração de segundo em que esteve no famoso "vão entre o trem e a plataforma". Ainda hoje se pergunta se não terá sido obra de sua imaginação fértil. Seja como for, sentiu-se grata por não ter permanecido tempo suficiente para se lembrar.



Escrito por Mariana Santos às 22h27
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Pré-lançamento do livro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, em Genebra!

Feliz, feliz!
Acabei de receber do meu amigo Thiago Domenici a notícia de que o livro sobre os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, para o qual fiz uma reportagem, foi pré-lançado em Genebra, na Suíça! Bacana, não? Trabalho muito legal, que tive o prazer de compartilhar com alguns amigos e figuras ilustres do nosso jornalismo. Minha pauta foi "direitos humanos das comunidades quilombolas". Fui até Ubatuba conhecer o quilombo Caçandoca, comunidade incrível, de pessoas fortes, praia linda e preservada, mas ameaçada pela especulação imobiliária. O nome da reportagem é "Caçandoca Resiste". Ainda não sei quando será o lançamento no Brasil, mas espero que não demore. Estou ansiosa para ver como ficou. Abaixo, o texto que explica melhor que eu. Tô meio besta ainda.

07.05.09 - Livro sobre os 60 Anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos tem pré-lançamento em Genebra

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República  (SEDH/PR) realizou hoje (7), em Genebra, Suíça, o pré-lançamento do livro “Brasil Direitos Humanos – 2008: A realidade do país aos 60 anos da Declaração Universal”, que traz artigos, entrevistas e reportagens sobre os Direitos Humanos no país.
O evento contou com a participação do ministro Paulo Vannuchi, que entregou um exemplar nas mãos da Alta Comissária da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, e do presidente do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, embaixador Martin Ihoeghian Uhomoibhi.
Participaram do lançamento do livro todos os integrantes do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, responsáveis por sabatinar a delegação brasileira durante os dias de ontem e hoje, sobre o relatório a respeito do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Pidesc), do qual o Brasil é signatário. Esta é a segunda vez que o país apresenta o relatório Pidesc na ONU, a primeira foi em 2003. 
Realizado na residência da embaixadora do Brasil em Genebra, Maria Nazareth Farani Azevedo, o evento teve a presença de toda a delegação brasileira, presidida pelo ministro Vannuchi e composta por representantes de 13 ministérios, além de vários embaixadores de países amigos.
Com tiragem de 5 mil exemplares e distribuição gratuita, o livro “Brasil Direitos Humanos – 2008: A realidade do país aos 60 anos da Declaração Universal” possui 288 páginas. Para o pré-lançamento em Genebra foi produzido uma versão resumida em inglês com  31 páginas.
Entre os assuntos abordados estão os direitos das mulheres, dos quilombolas, da criança e do adolescente, à liberdade de orientação sexual. Assinam artigos os estudiosos Flávia Piovesan, Marcos Rolim, Maria Victoria Benevides, entre outros, além dos ex-ministros dos Direitos Humanos Nilmário Miranda, Paulo Sérgio Pinheiro e José Gregori.



Escrito por Mariana Santos às 23h42
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Os tempos, eles estão mudando.

Lucas, o Luquinhas, é uma das 2500 pessoas atendidas mensalmente pelo GRAACC, Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer. Com apenas 9 anos, expõe sua "ideia para mudar o mundo" registrada no vídeo abaixo:



As crianças são sábias. Confiemos nelas.



Escrito por Mariana Santos às 17h28
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A troca

Fazer uma criança sorrir pode parecer trivial para um palhaço. Coisa básica. E às vezes é mesmo só parte da brincadeira, da maravilhosa troca entre palhaço e criança. Mas têm momentos únicos, diferentes de todos, em que o palhaço quer chorar quando a criança sorri. Outro dia no hospital foi mais ou menos assim.
Em um certo quarto, mãe e filho ouviam apenas os sons tensos do ambiente e tinham pouco mais que quatro paredes, uma poltrona, alguns aparelhos, uma manta e um ao outro como companhia. O menino, uma criança especial de uns 10 anos, sentado na cama, pareceu não se surpreender quando eu, Maritaca, e o Dr. Nilo entramos. Mas a mãe se mostrou feliz em nos ver meter nossos narizes vermelhos onde não fomos chamados.
Poucos minutos ali dentro e algumas baboseiras depois, nos divertíamos com a manta, que a essa altura se tornara muito mais que um simples cobertor. Virou cortina num palco imaginário, onde dois palhaços atrapalhados se apresentavam. O menino sorria e a mãe, olhando dele para nós, parecia também se divertir. Público satisfeito. Ufa! Hora de ir embora. Mas antes que a manta se tornasse um bebê dorminhoco nas mãos de Nilo, em meio à nossa bagunça, ouvi a mãe dizer: “Obrigada. Vocês fizeram ele sorrir.” Quando olhei, seus olhos eram duas piscinas rasas. Engoli um golão de saliva, na tentativa de manter a palhaça no corpo. Deixamos nosso “filho” na poltrona e fomos embora. Mas sei que alguma coisa ficou ali, no ar. Invisível e silenciosa. Porque aqui dentro ficou. Me senti importante, grande.
E em um instante, Nilo e eu estávamos de volta ao corredor, prontos para entrar em outro quarto e, mais uma vez, sem a menor ideia do que ia acontecer.



Escrito por Mariana Santos às 10h48
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Sapiência

"Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer. Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente. Deixai que as coisas que eles circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos para lhe servir quando for preciso e nunca lhe causar danos, sejam eles morais, físicos ou psicológicos."

Chico Science



Escrito por Mariana Santos às 12h36
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Guantánamo, “relajante, tranquilo y hermoso”, diz Miss Universo

 

Li o texto a seguir no site Cuba Debate (http://www.cubadebate.cu). Achei interessante e decidi postar aqui traduzido. As declarações da Miss sobre a base naval dos Estados Unidos em Guantánamo foram retiradas de seu blog dias depois de publicadas.

 

Um “lugar relaxante, tranquilo e bonito” pode não ser uma típica descrição da Baía de Guantánamo, em Cuba, onde os Estados Unidos mantêm cerca de 240 prisioneiros em um centro que se tornou alvo de críticas sobre esse país. Mas foi a opinião da atual Miss Universo, a venezuelana Dayana Mendoza, que visitou este mês as instalações navais estadunidenses, localizadas no leste de Cuba, durante uma viagem organizada pela United Service Organizations (USO, da sigla em inglês), grupo que oferece serviços de apoio às forças armadas dos Estados Unidos.

A base da Baía de Guantánamo, cuja presença tem sido qualificada durante anos como ilegal pelo governo de Cuba, é usada pelas autoridades estadunidenses como prisão para supostos terroristas. Os críticos a descrevem como símbolo dos abusos da “guerra contra o terrorismo” lançada por Washington depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Mendoza, de 22 anos e oriunda de Caracas, visitou as instalações entre 20 e 25 de março, acompanhada de Crystle Stewart, de 27 anos, miss Estados Unidos, e disse que sua viagem a Guantánamo foi uma “experiência incrível” em seu blog na página Miss Universo (www.missuniverse.com/). “Foi muito divertido!” (“¡Fue muuuy divertido!”), escreveu Mendoza, ao relatar como ela e Stewart conheceram a militares estadunidenses e passearam pela base, rodeada de cercas de arame farpado, campos minados e torres de observação. Também revelou que visitaram um bar e uma praia “incrível”. Escreveu: “Visitamos os campos dos presos e vimos as celas, duchas, como se entretêm com filmes, aulas de arte, livros. Tudo muito interessante. Não queria ir embora, foi um lugar tão relaxante, muito tranquilo e bonito”.

Os presos e grupos de direitos humanos têm denunciado o uso de tortura, incluindo afogamento simulado e outros abusos físicos na prisão.



Escrito por Mariana Santos às 14h11
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Votação no Sindicato dos Jornalistas. Último dia!


Executiva e membros do Conselho de Diretores

Hoje é o último dia de votação para diretoria do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Foram três: 24, 25 e 26 de março. Há 20 anos um mesmo grupo dirige o órgão que deveria representar os jornalistas e lutar pelos direitos da categoria. Estão tentando a reeleição por intermédio da chapa 1. Espero sinceramente que não consigam. Por quê? Motivo é o que não falta: Os pisos salariais da categoria são ridículos e os reajustes mal acompanham a inflação do período. Emprego com carteira assinada é uma lenda no jornalismo atual. As jornadas de trabalho são raramente respeitadas e pagamento por hora-extra inexiste. Está mais do que na hora de mudarmos isso.
Jornalistas sindicalizados, não deixem de votar.
Mais informações sobre as eleições e a chapa de oposição clique: 
www.sindicatopralutar.com.br



Escrito por Mariana Santos às 12h06
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As águas de março matam

 

De janeiro a março, todos os anos, as cenas se repetem: a chuva despenca sobre São Paulo durante algumas horas, o suficiente para transformar a cidade em um cenário apocalíptico. Congestionamentos intermináveis, casas invadidas pela água, transbordamento de córregos, carros submersos, pessoas arrastadas pelas ruas. Caos. Ainda tem o depois. Veículos sem condições de uso, pessoas desabrigadas, hospitais cheios (mais ainda) com os casos de leptospirose. Sem contar mais um monte de consequências que não vêm à mente agora. E anteontem (17/03) dois idosos passaram mal enquanto tinham seus carros arrastados e invadidos pela água. E lamentavelmente morreram. Ciro de Souza Nogueira, de 81 anos estava na Avenida Professor Luiz Ignácio de Anhaia Melo, na Vila Prudente, zona leste e José Mendes Moreira Filho, de 74 anos, na Avenida do Estado, em São Caetano do Sul.

Aí ontem de manhã ouvi no rádio o Secretário Municipal das subprefeituras de São Paulo, Andrea Matarazzo dizer que as enchentes são obra do imponderável, a chuva. A repórter até comentou ironicamente: “Claro, a culpa é da chuva”. No mesmo contexto, o apresentador do programa dizia que em Londres, a cidade do mundo onde mais chove, não há o mesmo problema e deu até os exemplos de Buenos Aires e Nova York, esta última sendo ainda mais impermeabilizada que São Paulo e onde não se tem notícias de enchentes. Mas eu dou o exemplo de Cuba. Em 2008 passaram três furacões por lá e não houve sequer uma vítima fatal. E estamos falando de furacões, ventos que alcançam mais de 120 quilômetros por hora. Acontece que em Cuba a preocupação com as vidas humanas existe de fato. Lá o imponderável é devidamente contornado. Max Altman, jornalista que esteve na ilha durante a passagem do último furacão, Paloma, conta que 1 milhão e duzentas mil pessoas foram deslocadas de suas casas antes da passagem do furacão. “Casas foram destruídas, o mar subiu 4 metros em Camagüei, uma cidade do sul. O mar invadiu um quilômetro e meio terra adentro e não houve uma vítima fatal. Você fala com uma criança de cinco, seis anos, e ela sabe de meteorologia como um adulto que trabalha em meteorologia no Brasil”. E em Santa Catarina mais de 150 pessoas morreram o ano passado, sem que a Defesa Civil pudesse impedir.

São Paulo convive há tanto tempo com as enchentes que já viraram parte da paisagem da cidade no início do ano. Prefeitura e Estado também já se acostumaram, parecem ignorar o problema. Não é preciso que a meteorologia nos diga que vai chover e que a cidade não terá capacidade de escoar toda a água de maneira eficiente. Medidas preventivas categóricas são necessárias e urgentes. É claro que a população tem sua parcela de culpa. Basta olhar para os sofás, colchões e outros objetos que boiam pelas ruas e entopem bueiros com latinhas, embalagens, sujeira de todo tipo. Mas isto é mais uma prova de que falta um trabalho sério de conscientização da população aliado à medidas práticas conjuntas entre Prefeitura e Estado. Vale lembrar que em novembro de 2006, o prefeito Gilberto Kassab afirmou que São Paulo estava preparada para enfrentar as chuvas fortes do período. Havia, segundo ele, aumentado os investimentos em infra-estrutura para limpeza de bueiros e córregos. Menos de um mês depois, novas enchentes aconteceram. O que significa que é necessário mudar de tática. Hoje vi em vários veículos as aspas do prefeito: “Nem o orçamento inteiro voltado para as medidas antienchentes seria suficiente para resolver o problema em uma única gestão”. Não podemos esquecer também que este já é seu segundo mandato. E de algum lugar a solução tem que partir. Há décadas a cidade sofre com esse problema, que só aumenta.

E só para constar: a previsão do tempo para hoje é de chuva em São Paulo, segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos. Salve-se quem puder.



Escrito por Mariana Santos às 13h46
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Café Pequeno (o fechamento da TV Unicsul)

 

Coisas “pequenas” também merecem ser noticiadas. Merecem o devido respeito pelo significado que têm no fim das contas. E grande significado, porque nas coisas aparentemente pequenas que ninguém presta atenção – porque quem deveria não faz questão de mostrar – é que se escondem as verdades inconvenientes e necessárias. Mas digo pequenas porque a grande mídia brasileira não dá uma nota sequer. Nem faz  cócegas.

A TV Unicsul fechou e isso no mínimo faz diferença para os alunos de Comunicação Social da universidade. E para mim, que trabalhava lá. Aliás nem o nome Unicsul existe mais. Tem que dizer Universidade Cruzeiro do Sul. Deixou de ser “UNI”. Deixou? Pelo contrário, está cada vez mais uni, a cada dia mais empresa e menos entidade de ensino. Mas a notícia é outra. E é a mesma. Só por curiosidade, já prevendo qual seria o resultado, digitei no Google “TV Unicsul (e variantes, Cruzeiro do Sul, ou o que seja)” e fiz algumas tentativas de encontrar algo sobre demissões em massa ou o fechamento da TV em dezembro. Nada. Então anteontem consultei o site do Canal Universitário, que veicula a programação de TVs de universidades como a Cruzeiro do Sul. Menos uma agora.

O que me entristece não é apenas ter perdido o emprego em meio à crise. Essa parte talvez seja a mais fácil de engolir, coisa previsível até. Difícil é ver o fim de um dos poucos meios de informação livre da contaminação publicitária, sem preocupação com IBOPES, estatísticas mercadológicas e redução do espectador a mero consumidor de programas enlatados. Mas já sabíamos que era perigoso fazer parte do sistema sem se deixar corromper por ele. E nós ainda conseguíamos, nem sei como, nos manter firmes em nosso compromisso social. Talvez por isso tomamos esse peteleco. Nós e uma boa quantidade de funcionários de vários setores da UNI. Culpa da crise.

Já havia algum tempo que corriam boatos sobre a fragilidade da TV como “setor produtivo” da empresa. Quando a coisa apertar, a TV é a primeira a rodar, diziam. Claro. Não dava lucro, por que ainda existia? Causávamos prejuízo para a Universidade, que pagava para o CNU veicular nossos programas, como fazem todas as outras TVs universitárias. Sem contar a quantidade de funcionários e equipamentos que tinham de bancar para fazer a coisa funcionar. E pra quê? Pra não mostrar nenhum famoso, ninguém que fizesse a Unicsul parecer mais interessante aos seus potenciais consumidores. Agora está claro porque nosso Windows era 95. Tentavam nos vencer pelo cansaço, a TV já não funcionava havia tempos. Já tinham dado sua sentença de morte. Trabalhávamos de teimosos. E fizemos reportagens incríveis, que não assisti em nenhum outro canal.

Confesso que mesmo depois da demissão em massa, ainda guardava, no fundo, alguma esperança burra de um horariozinho na grade do Canal, pelo menos para ter onde passar os trabalhos dos alunos. Uma pena.

E ninguém noticia a decadência da educação brasileira (e particular!) que vem chegando aos poucos, com “pequenas” coisas como esta. Todo semestre dúzias de professores com mestrado e doutorado são demitidos, para ser contratados outros pela metade do preço. Eu mesma perdi alguns dos meus melhores professores assim, no meio do curso, sem grandes satisfações. Interessante o valor da mensalidade aumentar todo ano, sem dó nem piedade. E agora tem a tal da Educação à Distância, uma maneira inovadora de reduzir horas/aulas e, portanto, salários de professores e piorar a qualidade das aulas. Uma desgraceira. Nem dá mais pra dizer que é o ensino público que vai mal. É que educação também virou mercadoria. E isso não vende jornal.



Escrito por Mariana Santos às 12h23
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