As águas de março matam De janeiro a março, todos os anos, as cenas se repetem: a chuva despenca sobre São Paulo durante algumas horas, o suficiente para transformar a cidade em um cenário apocalíptico. Congestionamentos intermináveis, casas invadidas pela água, transbordamento de córregos, carros submersos, pessoas arrastadas pelas ruas. Caos. Ainda tem o depois. Veículos sem condições de uso, pessoas desabrigadas, hospitais cheios (mais ainda) com os casos de leptospirose. Sem contar mais um monte de consequências que não vêm à mente agora. E anteontem (17/03) dois idosos passaram mal enquanto tinham seus carros arrastados e invadidos pela água. E lamentavelmente morreram. Ciro de Souza Nogueira, de 81 anos estava na Avenida Professor Luiz Ignácio de Anhaia Melo, na Vila Prudente, zona leste e José Mendes Moreira Filho, de 74 anos, na Avenida do Estado, em São Caetano do Sul. Aí ontem de manhã ouvi no rádio o Secretário Municipal das subprefeituras de São Paulo, Andrea Matarazzo dizer que as enchentes são obra do imponderável, a chuva. A repórter até comentou ironicamente: “Claro, a culpa é da chuva”. No mesmo contexto, o apresentador do programa dizia que em Londres, a cidade do mundo onde mais chove, não há o mesmo problema e deu até os exemplos de Buenos Aires e Nova York, esta última sendo ainda mais impermeabilizada que São Paulo e onde não se tem notícias de enchentes. Mas eu dou o exemplo de Cuba. Em 2008 passaram três furacões por lá e não houve sequer uma vítima fatal. E estamos falando de furacões, ventos que alcançam mais de 120 quilômetros por hora. Acontece que em Cuba a preocupação com as vidas humanas existe de fato. Lá o imponderável é devidamente contornado. Max Altman, jornalista que esteve na ilha durante a passagem do último furacão, Paloma, conta que 1 milhão e duzentas mil pessoas foram deslocadas de suas casas antes da passagem do furacão. “Casas foram destruídas, o mar subiu 4 metros em Camagüei, uma cidade do sul. O mar invadiu um quilômetro e meio terra adentro e não houve uma vítima fatal. Você fala com uma criança de cinco, seis anos, e ela sabe de meteorologia como um adulto que trabalha em meteorologia no Brasil”. E em Santa Catarina mais de 150 pessoas morreram o ano passado, sem que a Defesa Civil pudesse impedir. São Paulo convive há tanto tempo com as enchentes que já viraram parte da paisagem da cidade no início do ano. Prefeitura e Estado também já se acostumaram, parecem ignorar o problema. Não é preciso que a meteorologia nos diga que vai chover e que a cidade não terá capacidade de escoar toda a água de maneira eficiente. Medidas preventivas categóricas são necessárias e urgentes. É claro que a população tem sua parcela de culpa. Basta olhar para os sofás, colchões e outros objetos que boiam pelas ruas e entopem bueiros com latinhas, embalagens, sujeira de todo tipo. Mas isto é mais uma prova de que falta um trabalho sério de conscientização da população aliado à medidas práticas conjuntas entre Prefeitura e Estado. Vale lembrar que em novembro de 2006, o prefeito Gilberto Kassab afirmou que São Paulo estava preparada para enfrentar as chuvas fortes do período. Havia, segundo ele, aumentado os investimentos em infra-estrutura para limpeza de bueiros e córregos. Menos de um mês depois, novas enchentes aconteceram. O que significa que é necessário mudar de tática. Hoje vi em vários veículos as aspas do prefeito: “Nem o orçamento inteiro voltado para as medidas antienchentes seria suficiente para resolver o problema em uma única gestão”. Não podemos esquecer também que este já é seu segundo mandato. E de algum lugar a solução tem que partir. Há décadas a cidade sofre com esse problema, que só aumenta. E só para constar: a previsão do tempo para hoje é de chuva em São Paulo, segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos. Salve-se quem puder.
Escrito por Mariana Santos às 13h46
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