Entrevista com Eliane Brum (saiu no Comunique-se) 
Ausência grande a minha, não? Ultimamente tem dado um remorso ficar muito tempo sem escrever aqui. Bom sinal. Vai ver já virou hábito e o hábito tem um poder incrível de disciplinar. Mas vamos ao que interessa. É que acabei de ler uma entrevista interessante com a jornalista Eliane Brum. Ela é repórter especial da Época e suas reportagens geralmente têm como personagem central o sujeito comum, as histórias do cotidiano, a "vida que ninguém vê". Aliás, esse é o título do livro que me fez admirar o trabalho dela. A Vida que Ninguém Vê. Recomendo. Compreendi com ele que as vidas comuns invisíveis são as mais extraordinárias. O livro me inspirou e ajudou muito no TCC há quase dois anos e ainda hoje. Aliás, NOS ajudou, também a minha grande amiga e super companheira de livro-reportagem, Meire Barbosa. Qualquer dia posto aqui algum trecho dele. E quando eu mesma entrevistar Eliane Brum posto aqui também, prometo. E para terminar esse post grande e sem nenhuma coesão nem coerência (sem pé e sem cabeça), aí vai, na íntegra, a entrevista. Entrevista com Eliane Brum: "ser repórter é ser um escutador da realidade"
Projeto Na Mira
Eliane Brum, jornalista renomada e autora de três livros, entrou na profissão quase por acaso. Quando estudante, ela tinha certeza de que seria historiadora. Seu destino mudou ao conhecer Marques Leonam, professor de estágio, que a inspirou pela paixão com que falava da profissão. Gaúcha de Ijuí, iniciou sua trajetória no jornalismo como repórter no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 1988. Desde 2000, é repórter especial da revista Época, em São Paulo. Os livros de sua autoria são Coluna prestes – o avesso da lenda (1994, Artes e Ofícios), A vida que ninguém vê (2006, Arquipélago Editorial) e O olho da rua (2008, Editora Globo). Conquistou o Prêmio Comunique-se em 2006 e 2008. Ganhou dezenas de outros prêmios de reportagem, como Esso, Vladimir Herzog, Ayrton Senna e Sociedade Interamericana de Imprensa. Seu documentário, Uma história Severina (2005), do qual é co-diretora e co-roteirista, foi contemplado com mais de 20 prêmios nacionais e internacionais. Como começou seu envolvimento com o jornalismo? Acho que foi muito antes de eu gostar de ler jornais. Eu sempre gostei muito mais de olhar e de escutar do que de falar. Então, desde muito pequena lembro de mim observando as pessoas, quieta num canto. Passava pelas casas iluminadas por dentro e queria muito saber o que acontecia lá dentro. Queria saber como aquelas pessoas viviam, com o que sonhavam, o que as fazia rir ou chorar. Como não podia entrar, ficava imaginando enredos. O jornalismo me deu uma desculpa para bater na porta e entrar. Acho que cada matéria que eu faço me leva para dentro de uma daquelas casas iluminadas por dentro da minha infância. Qual foi a sua maior dificuldade no início da carreira? Nos primeiros anos foi difícil, porque eu ainda peguei o tempo em que as matérias dos repórteres passavam obrigatoriamente por uma equipe de redatores, que tratava de formatá-las. Eu sentia essa formatação como uma violência e, apesar de foca, brigava muito. Acho que os redatores também achavam que o que eu fazia não era jornalismo, porque era um texto mais solto. Mas, aos poucos, fui conseguindo conquistar meu espaço, especialmente depois que o Augusto Nunes assumiu a direção da Zero Hora, no início dos anos 90. Foi então que descobri que ser repórter é a melhor profissão do mundo. Você teve problema com a timidez quando entrou no jornalismo? Nunca fui tímida no exercício da reportagem. Acho até que os tímidos levam vantagem no jornalismo, porque naturalmente conseguem escutar mais os entrevistados. Creio que ser repórter é ser um escutador da realidade, num entendimento amplo do que é escutar. Sinto-me muito à vontade com os meus entrevistados e, quando estou na rua, são nestas situações que me sinto mais eu mesma. Sou tímida com público e com gente me olhando. Mas, agora, de tanto fazer palestra, já estou mais soltinha. Em vez de um iceberg na barriga, como sempre, agora só tenho um bloco de gelo de porte médio. Já aos 11 anos você teve seu primeiro livro publicado. A que você atribui o seu gosto pela leitura e pela escrita desde tão nova? Os livros foram a segunda grande descoberta da minha vida. (A primeira foi feijão.) Os livros me ensinaram que eu poderia viajar por outras vidas e outros mundos sem sair do meu quarto. Até hoje não concebo nada tão perfeito quanto essa idéia. Gosto de viajar pelos livros tanto quanto de viajar de trem ou de carro. Isso foi uma enorme descoberta, uma grande transformação na minha vida. Cada um tem um cheiro e uma personalidade, mesmo antes de eu começar a lê-los. Com relação aos Direitos Humanos, muitas das suas matérias se baseiam nesse assunto. Como surgiu o interesse por esse tema? Acho que minhas matérias, de certo modo, falam de um direito humano fundamental: o de não ser reduzido pelo olhar do outro. O que inclui o olhar do repórter, da imprensa. Busco olhar para as pessoas sem reduzi-las a um clichê ou a um personagem folclórico, a uma parte apenas de si mesmas. Minha principal tarefa, como repórter, era dar voz a quem não tinha. Hoje, estou muito feliz que muita gente que antes dependia do olhar do repórter para se expressar no mundo, para ser escutado, passou a contar sua própria história, especialmente a partir da Internet, que criou espaços novos e acessíveis de expressão. Adoro quando o mundo da gente é revirado e precisamos dar conta de outras realidades. Na sua opinião, o que é importante para fazer uma grande reportagem? Além de olhar para ver, o mais importante é escutar. Muitas vezes, o mundo que levamos ao leitor se limita ao "fulano disse, sicrano retrucou". Felizmente, há muitos focos de resistência no país inteiro, mas, de qualquer modo, é triste. Acredito que escutar é mais do que ouvir. Escutar é não interromper o entrevistado quando ele suspira, é não interromper o entrevistado porque achamos que já sabemos o que ele quer dizer, é não interromper o entrevistado porque ele não está dizendo o que queríamos que dissesse. Qual a matéria ou situação mais engraçada que você passou? A situação mais inusitada vivida por mim foi fazer a matéria da prisão de uma ave. Ao ligar para o policial de plantão numa delegacia da região metropolitana de Porto Alegre, fiquei sabendo que o movimento estava tão calmo que a única presa era uma galinha. Na hora, a sirene tocou na minha cabeça. Como assim? Uma galinha presa? Chegando à delegacia, vi a galinha que tinha sido encontrada na companhia de um bêbado e de um galo morto. A polícia, naturalmente, liberou o homem e prendeu a galinha. Depois, fiquei sabendo que o bêbado era procurado por homicídio. O caso foi capa do jornal Zero Hora com o seguinte título: "Detida por atitude suspeita". O projeto Na Mira é uma iniciativa dos estudantes de Comunicação Social que trabalham da Unidade de Pesquisa e Atualização (UPA), responsável pela atualização da base de dados do Comunique-se. Mensalmente, a equipe do Na Mira entrevista um jornalista. Participaram desta edição os estudantes Rafael Menezes, Carolina Monte, Robério Moura, Juliane Souza, Laercio Vieira e Priscila Reis. A coordenação do projeto é da gestora da UPA, Priscila Daud.
PS: Esqueram de citar o prêmio Jabuti (o mais anigo do Brasil), que ela ganhou em 2007, pelo livro A Vida que Ninguém vê.
Escrito por Mariana Santos às 00h04
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