Lembranças da Família Engraxate Como prometi, separei um trechinho do livro-reportagem que fiz em parceria com a minha amiga Meire Barbosa como Trabalho de Conclusão de Curso, o tal TCC. O mais temido trabalho da faculdade, o último e mais profundo estudo do curso. Aquele que costuma destruir amizades, provocar desafetos. Mas não foi o nosso caso. Tivemos a felicidade de trabalhar juntas e, modéstia a parte, fizemos um excelente trabalho, o que nos garantiu nota máxima. Não posso deixar de registrar a contribuição fundamental do professor Valmir Santos, o Vals, amigo e grande orientador. Foi há dois anos, mas parece que foi anteontem. Abaixo um capítulo completo, que escolhi por ser meio independente dos outros. E também porque passa por quase todos os personagens da Praça, nosso laboratório. Informações complementares: Tiquinho é o apelido do menino Valter, o filho mais novo da família engraxate. Aloísio é o pai de Valter e "as estudantes" somos nós, Meire e Mari. 
Grande Tiquinho Ele é o mais sociável dos meninos. Gosta de jogar bola com seu irmão e as crianças do bairro onde mora. Na Praça, interage com quase todos os personagens, que o conhecem de suas andanças. Muitos lhe pagam lanches, tantos outros lhe oferecem a amizade da rua, o afago marginal do tapinha nas costas, da brincadeira de fingir pegar e correr. Valter tem a malandragem que aprendeu correndo para atravessar a avenida, conversando com seus clientes, negociando o valor da engraxada. Seus olhos de criança vêem tudo acontecer e digerem sem traumas, porque acostumaram-se ao cenário. Há ainda nele a inocência da idade, a vergonha às vezes, quando se enrosca no colo do pai e sorri timidamente tentando esconder que pediu ajuda para fazer a lição dada. Mas já existe em seus modos a esperteza do homem, certo oportunismo que a rua infere, quando vê uma cliente e lhe pede “caixinha”. Está acostumado a ganhar coisas de desconhecidos e de conhecidos também. Será que sabe quanto vale o dinheiro que ganha? Que conhece o valor do trabalho que realiza? Tem consciência do que representa? Na tentativa de traçar um perfil do menino, alguns desses personagens são entrevistados e falam suas impressões. Através de diferentes olhares e sentimentos, é desenhado um Tiquinho de emoções, em cores vivas que confirmam o que está estampado em seu rosto. – O Valter é farinha! Toda hora ele vem, passa pela gente e corre –, afirma Alexandra Neres de Souza, vinte e seis anos, divulgadora de prata e ouro. Ela trabalha há quatro anos na rua atraindo clientes para a loja de onde os patrões a vigiam. Responde rapidamente, com medo de ser repreendida. Propõe outra rápida definição para o Valter: – Ele é uma criança feliz. Tem crianças que você vê que não, mas ele é. Ricardo Silva, trinta e oito anos, colega de profissão de Alexandra, conhece Valter de passagem, vez por outra lhe dá balas, paga refrigerantes. Trabalha no prédio cinqüenta e quatro, em frente à cadeira de Aloísio, do outro lado da rua. Ele diz dar conselhos a Tiquinho, acha que ele deveria estar na escola ou numa creche, pois na Praça “vê muita coisa que não deve”. – Ele é muito descuidoso –, comenta. Apesar disso, considera Valter bem tratado. Todas as vezes que pergunta se ele se alimentou, o menino responde que sim. Ricardo trabalha ali há pouco mais de um ano, é casado e tem cinco filhos. Um deles é menino, como Valter. Buscando diferentes pontos de vista sobre Tiquinho, as estudantes vão até o posto da Guarda Civil Metropolitana, onde o menino entra quase diariamente oferecendo brilho às botas dos policiais. O inspetor – que não diz seu nome – permite que conversem com alguns policiais, mas sem citar seus nomes. Apesar disso, Luciana e Cláudio não se importam em identificar-se e tranqüilamente revelam suas opiniões sobre a Praça e o menino. Luciana, que aparenta cerca de trinta e seis anos é casada com um policial militar e mãe de um casal de crianças. Sobre o Valter, ela diz: – Ele é esperto, mas às vezes é bravo. É um menino caladinho e bem sossegadinho. Sabe pouco sobre a família do garoto. Conta apenas que moram em Ferraz de Vasconcelos. Sabe que ele estuda à tarde, pois o vê saindo sempre por volta de 11h. Diz que o serviço dele não é muito caprichado, mas permite que engraxe por vontade de ajudá-lo. – Ele costuma bater na caixa duas vezes (para o cliente trocar de pé, o próximo a ser engraxado). Não pede para trocar, apenas dá toques na caixa com a escova até que a pessoa perceba e mude. E faz cara feia se ela não entender. Cláudio, quarenta e quatro anos, casado e pai de dois filhos, entrou em mil novecentos e oitenta e seis na polícia. Está há oito meses na base da Praça da Sé. Seu perfil sobre Valter é de um menino esforçado, atencioso, educado. Fica o dia inteiro trabalhando, segundo ele. Acha que Valter não estuda justamente por ficar lá o dia todo. Cobra um, dois reais pela engraxada, que na sua opinião não é muito bem feita. Não poderia faltar a opinião de Maloqueiro, o plaqueiro, para completar a rima: – É um menino trabalhador, engraxa os sapatos dos policiais, ganha dez reais, entrega tudo para o pai –, testemunha. O adjetivo trabalhador, embora defina uma qualidade, tem um peso grande quando se trata de uma criança de nove anos, que normalmente não tem responsabilidades maiores do que o dever de casa e a escolha da próxima brincadeira. – O Valter é legal, mas tem de estudar. É um bom menino, mas aprende coisa errada –, emenda Maloqueiro. – Ele respeita o pai? – Sim. O pai bota lei nele. – E você, ele respeita? – Eu não, nóis é maloqueiro! –, ele ri. A gari Maria José de Araújo trabalha há cinco anos na Praça. Tem sessenta anos, mas aparenta quarenta e cinco e olhe lá. Está sempre maquiada e sorridente. Foi uma das primeiras pessoas a fazer amizade quando a Família Engraxate iniciou suas atividades na Praça e considera o Valter um menino legal, inteligente e trabalhador. – É bom filho. E tem um paizão –, diz. Já engraxou sapatos com Valter e recorda do dia em que pagou pelo serviço com uma banana. Ele recusou o dinheiro, depois de receber a fruta. Dia desses, depois de presenteá-lo com um caderno de desenho e uma caixa de giz de cera, as estudantes pedem para que faça desenhos. Antes de fazer o desenho que representa a Praça, ele avisa: – Vou desenhar esses quadradinhos aqui –, diz referindo-se ao chão. 
Ele enxerga mais de perto o solo, que sente com os pés. Descalços. Anda pela Praça e pela vida, sentindo mais do que os sapatos são capazes. Valter quer ser doutor quando crescer, não importa do quê. Advogado, médico, doutor executivo? Sabe-se lá. Para ele, basta que lhe chamem de doutor!
Escrito por Mariana Santos às 15h46
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