Sou um mosaico. Uma colcha de retalhos em que cada pedacinho é um teco que roubei de alguém. Mas não me leve a mal. Quando digo "roubei" é no bom sentido. Não significa que deixei alguém sem. É que me tornei um pouquinho como o outro, fiquei parecido. É bom e é ruim ser vários sem ser ninguém. É esquisito. E é único. Quando o outro vira parte da gente, é como se fôssemos um pouco dele, sem deixar de ser nós mesmos. É inevitável não se contagiar pelo outro, a troca. Vai ver isso explica a confusão aqui dentro. E quando roubo, roubo só o que se tem de melhor. Porque o "ruim" é tudo igual. Legal mesmo é roubar as esquisitices, as caricaturas, os tiques propositais. E depois adaptá-los como se fossem meus. Ajustar como parte do personagem que sou eu mesmo. Compor um ser cada dia novo e maravilhoso. Formado de fragmentos, gracejos, punhados alheios. Isso tem nome: amor. Tanto que mesmo que o outro vá para longe, ele fica. Não deixo ir por completo. Fico com parte dele, sem que perceba. É só um pouquinho, coisa de meio, um por cento. Não faz diferença. Pra ele. Pra mim sim. Viro um pouco mais de poesia, um pouco mais de encontro, encanto. Ser um só não me satisfaz, não tem graça. Bom mesmo é não ter fim. Nem começo.
Escrito por Mariana Santos às 23h32
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